Instituto Açoriano de Cultura
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Graça Morais
Exposição de Desenho e Pintura

 

Com efeito, a realização de uma exposição de Graça Morais constituiria, por si só e para o Instituto Açoriano de Cultura, motivo de justificada satisfação. Pelo que maior ainda se torna esse contentamento quando o acontecimento se encontra integrado no programa das actividades sócio-culturais paralelas ao projecto da sua Xll Semana de Estudos, subordinada, este ano, ao tema "Os Açores e o Mundo - O Essencial no Fim de Século; e repartida, novamente, de forma descentralizadora, pelas Ilhas Terceira, Pico e São Miguel.
O alto nível que a presença da obra de Graça Morais vem conferir a essas actividades corresponde também à elevada expectativa da oportunidade que ir permitir, tanto ao público em geral como a quantos participem nos trabalhos desta Semana de Estudos na Ilha Terceira, um contacto privilegiado com o que de melhor acontece na área da pintura portuguesa contemporânea.

Assinale-se, de passagem, o facto de este evento ter lugar em Angra do Heroísmo, cidade do nascimento de António Dacosta, de quem Graça Morais foi Amiga pessoal e a cuja memória dedica a presente exposição.
Em virtude de mais esta valiosa presença de extraordinários lugares de acontecimento plástico e comunicação visual, fica o Instituto Açoriano de Cultura plenamente convicto de que tem vindo a cumprir do melhor modo um incontornável compromisso em boa hora assumido: o de preencher, no Arquipélago, um espaço efectivamente dinâmico, capaz de dar a conhecer aquilo que de melhor, em termos de criatividade, autenticidade e contemporaneidade, acontece lá fora. O que constitui, simultaneamente, uma indispensável forma de abertura Mundo.

Às palavras de merecida saudação à Pintora Graça Morais, cuja entusiástica aceitação da tímida proposta deste Instituto deu lugar a este inesquecível evento, cumpre-nos, porém, juntar a expressão do nosso reconhecido agradecimento ao Pintor Fernando Azevedo, Presidente da Sociedade Nacional de Belas-Artes, amigo destas ilhas ao longo de mais de trinta anos de missionato cultural, marcados pela mesma disponibilidade que o levou agora a aceitar o comissariado da presente exposição.

Palavras de sincera gratidão são devidas também a António Silva e Tristão Freire Andrade, pelo dedicado esforço posto na preparação e na montagem deste certame.

Finalmente, mas não em último lugar, para os nossos patrocinadores permanentes e para o mais directo apoiante deste importante acontecimento - a Companhia de Seguros Fidelidade, na pessoa do Presidente do respectivo Conselho de Administração a cuja boa vontade e generoso apoio financeiro se fica a dever a presença de Graça Morais nesta festa da cultura, vão os protestos da nossa imensa gratidão.

Jorge Augusto Paulus Bruno
Presidente da Direcção do Instituto Açoriano de Cultura

"O Rosto e os Frutos" chamou Graça Morais à primeira exposição que a notificou, em Lisboa na Sala de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas-Artes, precisamente em 1980, em começo de década que foi polémica e também desconcertante. "Memórias da Terra", se chamou a última, no ano em que estamos e que precede esta, em Angra, no espaço insular e privilegiado do Palácio dos Capitães-Generais.

Entre uma e outra, uma vida, apetece dizer. Uma vida não como um ponto final ou o seu balanço e contas - longe disso -, mas como uma atenção à vida no seu transcorrer humano, à marca, sobretudo, que ela vinca nos seres que habita longamente e um dia deixar , sozinhos, vagas recordações perdidas dessa habitação.

Os rostos e os frutos, ou os rostos como frutos, ora frescos, ora desfeitos, eram já para a pintora, uma aproximação da terra, inadiável e propiciatória uma metáfora da terra, das estações, do sol e da neve, dos humanos e dos animais. Tudo confundido, ou combinando-se, figuras de um mesmo mundo em espanto de aparecimento ou magoada tristeza de longa despedida.

A Terra, essa, dando tudo: o nascimento, o viver e a morte. A persistência deste ciclo ocupa toda a obra de Graça Morais ou será o que, de mais absoluto e profundo, a modela, a distingue de outras e a torna grave e bela como um cântico. As "Memórias da Terr" são isso mesmo: as memórias de viver a terra, a lembrança partilhada com os que vivem da terra. Cabe nelas, ao ínfimo detalhe, toda a experiência da pintora porque, sempre, de um modo simbólico ou de um modo declarado, de protesto, na obra de Graça Morais tiveram o seu lugar os seres da terra, os seus retratados, os seus actores, sem outro palco que não fosse o da vida, por ela recriada e narrada em verdade e fábula, a partir de Vieiro, a aldeia transmontana onde nasceu: junto das mulheres dos homens camponeses, dos bichos, entre montanhas e guias. Vieiro, que se tomou centro do mundo. Elevado por ela de berço de inocência a estrado de massacre, a palco exposto, a sentimento expresso da alma feminina e da intemporalidade dos seus dramas.

Cedo, a Mulher dimensionou o alcance dessa obra. Dimensionou-a e deu-lhe forma também. O desenho, antes da pintura, e a pintura com ele, vão tomar-se o registo apaixonado de cada rosto, de cada atitude, dos sentimentos indizíveis da sua escolhida família do nordeste português. A terra esculpe os seres da sua eleição, eles vivem a sua verdade, tanto quanto a sua lenda. Entre estes dois grandes picos da situação humana, Graça Morais elege e vive - uma viagem feita de pesquisas, de aflições, de heroísmos e deslumbramentos. E de paz, por vezes. De humildade, sempre.

E faz com que as suas personagens sustentem o tempo e que, acima das fundas rugas do rosto e do enovelado nodoso das mãos, da dobra do corpo sobre a terra, o olhar cintile. Mais na espera que na audácia; mais na mágoa que no prazer. Que este é dos homens, que não pinta, mas sim aos seus instrumentos, às facas de degolar porcos, às espingardas da caça. E assim, tão sedosa como o precioso penteado das mulheres, a acetinada inocência da perdiz metaforiza a Mulher e também um tanto o seu destino face à violência, ao mel.

No mundo que se vive hoje, dramático e insuportavelmente cruel, em tanto ponto da terra, esta metaforização que a pintura de Graça Morais começou a idear, a ver, ainda nos anos 80, no principio deles - anos que foram em muitos dos aspectos da arte nefastamente frívolos - ‚ premonitório. A Mulher ao mesmo tempo que se liberta ‚ cada vez mais violentamente vitima mais símbolo sofrido de sacrifícios, de ofensa. Amada e destruída, animal de desejo e de assassínio. Por isso ‚ que figuras de Picasso, da Guemica, se repetem, citadas intencionalmente nos seus quadros, sobrepostas aos rostos das mulheres de Vieiro. Por ali, o anunciar da tragédia próxima acendeu a mesma luz nocturna, e armou o mesmo braço com a mesma espada de morte que vem desde Poussin e de David, por Picasso, até ela, Graça.

Nessa mesma viagem, outros mitos, outros cultos são visíveis também por fora desta ruralidade simbólica que a artista contrapõe, não sem alguma ascese, ao domínio da visualidade e satisfação urbanas que têm caracterizado o século: o mundo do sagrado e o seu contraponto profano onde algum erotismo assoma; um titanismo renascentista e a sua negação portuguesa barroca e fradesca; o oriente, outros povos. A sua experiência em Cabo Verde, por exemplo, extraordinária de entendimento, de riqueza humana, de irradiação popular em ascensão erudita. Tudo isto são fulgurantes acertos de humanidade, figurações comprometidas com o respeito de valores que, sente-se, já se respiram, vêm, enovelados embora, avançando sobre nós como uma Aleluia prometida neste dobrar do tempo.

Assim ‚ com os últimos retratos, os mais recentes quadros. Quase todos nascendo, surgindo do escuro numa cor de breu, numa cor da terra. Frutos, retratos de mulheres, seres terrenos Adivinhadoras de tragédias, testemunhas distantes, memórias já sombras, ícones...

Fernando de Azevedo
Presidente da Sociedade Nacional de Belas-Artes

Sinopse Curricular

Nasceu em Trás-os-Montes, em 1948.

Concluiu o curso de pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, tendo leccionado na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis daquela cidade.

Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkien entre 1976 e 1979.

Realizou cartazes, designadamente dos 25 Anos da Amnistia Internacional e ilustrou livros de grandes poetas e escritores portugueses.

Recebeu o prémio Soctif-Artista de 1991, no âmbito do qual se realizou Album - Monografia Graça Morais.

Executou cenários e figurinos para diversas peças teatrais, de que se destacam Os Biombos, de Jean Genet (Teatro Experimental de Cascais, 1993) e Ricardo II, de Shaekespeare (Teatro Nacional de D. Maria II).

Tendo concluído, em 1993, quatro painéis em azulejos que ocupam um dos átrios da nova sede da Caixa Geral de Depósitos, concebeu plasticamente o espaço renovado da estação do Metro do Intendente, de Lisboa e inaugura, dentro de breves dias, os painéis de sua autoria da Estação Bielorússia, de Moscovo.

Realizou numerosas exposições individuais designadamente no Centro Cultural Português da Fundação C. Gulbenkien (Paris), na Galeria 111 (Lisboa), Kimberly Gallery (Washington), Scott Allen Gallery (New York) e participou em várias dezenas de exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro.


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Última actualização em 2004-12-28