Instituto Açoriano de Cultura
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Enrique Valero
Exposição retrospectiva de pintura

 

Na sala de exposições do Palácio dos Capitães Generais, em Angra do Heroísmo, foi apresentada, de 11 de Dezembro a 9 de Janeiro de 1999, uma exposição retrospectiva da obra de Enrique Valero, pintor actualmente residente e com atelier em Madrid, que viveu e trabalhou durante cerca de 25 anos na Ilha Terceira, tendo dinamizado um importante missionato de que beneficiaram diversos jovens criadores artísticos.

O certame reuniu algumas dezenas de trabalhos quer resultantes da sua mais recente actividade plástica quer seleccionados entre as obras mais representativas do artista deixadas nesta Ilha.

Para além da representação do longo e valioso percurso de um grande Pintor constituiu mais esta iniciativa do Instituto Açoriano de Cultura uma merecida homenagem a Enrique Valero, que, na ocasião, teve a oportunidade de celebrar o reencontro com discípulos, continuadores e amigos.

Os Açores têm sido palco, nos últimos anos, - nomeadamente nas ilhas Terceira e São Miguel - de acontecimentos de especial significado e dimensão - não só ao nível local ou regional, como também nacional - nos domínios das artes plásticas e performativas. Convém dizer, porém, sem modéstia, que boa parte destas oportunidades tem sido proporcionada pelo Instituto Açoriano de Cultura.

Com efeito, é o IAC um dos únicos agentes culturais de natureza colectiva existentes nesta Região que mais se têm empenhado em concretizar um projecto cultural, sistematizado e integrado em várias vertentes, entre as quais se situa, em lugar de destaque, a das artes plásticas.

É no âmbito deste projecto que tem sido assumida a preocupação clara de trazer aos Açores os artistas plásticos portugueses mais destacados no panorama nacional e internacional. Júlio Pomar, Graça Morais, Paula Rego, entre outros, são nomes que confirmam e fazem justiça a esta tão urgente quanto necessária e determinada missão.

A exposição de pintura que o Instituto Açoriano de Cultura leva, agora, a efeito concretiza também semelhante objectivo e dá corpo a um velho sonho: possibilitar aos terceirenses a revisitação da obra de um artista e pintor (homem de múltiplas dedicações nesta área) que nesta ilha viveu, produziu e marcou: Enrique Valero, a quem a sociedade terceirense ficou a dever um assumido envolvimento local com as Artes.

Com uma produção artística onde se podem identificar, com clareza, diversas fases - mais ou menos produtivas, mais ou menos apuradas -, mas francamente marcadas, todas elas, pela qualidade, Enrique Valero é um artista plástico com personalidade bem vincada na sua obra e que esta exposição retrospectiva salienta.

Residente e actualmente com atelier em Madrid, o Pintor, ao partir da Ilha Terceira, em 1989, deixou, porém, uma parte substancial da sua produção dispersa por inúmeras colecções particulares de amigos e apreciadores.

É, pois, especialmente com base neste vasto conjunto de obras existentes nesta ilha - a que se soma um outro conjunto de obras de produção recente vindo de Madrid, pela própria mão do seu autor - que se torna possível ao IAC proceder à selecção de que resultou a mostra de peças que integram este certame.

Torna-se, por esta razão, necessário e justo registar aqui um agradecimento a todos os coleccionadores que gentil e prontamente cederam algumas das suas obras para esta exposição.

Ficaria este texto todavia incompleto se não fossem também expressos os agradecimentos devidos a todos aqueles outros, particulares, privados e públicos que, de uma ou de outra forma, contribuíram, com a sua generosa colaboração ou apoio para a concretização deste projecto, de que nos permitimos salientar os patrocinadores permanentes das actividades do Instituto Açoriano de Cultura (a Ediçor, Edificadora Açoreana, L.da, a Fábrica de Cervejas e Refrigerantes Melo Abreu e o Grupo Sousa Lima), a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (com quem foram partilhados os custos deste catálogo) a Açoreana - Companhia de Seguros, que se responsabilizou pelo seguro das espécies expostas, e a Albergaria Cruzeiro, que ofereceu a estada ao Pintor.

A todos eles o Instituto Açoriano de Cultura apresenta o seu mais reconhecido agradecimento.

Dezembro/98
O Presidente da Direcção do IAC
Jorge Augusto Paulus Bruno

Uma exposição com esta amplitude e abrangência pretende, naturalmente, assinalar um trajecto, um percurso artístico, ao mesmo tempo que tem a intenção de uma homenagem. Justa homenagem, de resto, a um artista como o Pintor Enrique Valero, que durante mais de um quarto de século aqui viveu e trabalhou, deixando assinalável rasto e excelente espólio.

Não se trata, porém, do epílogo de um trajecto artístico ou do fim de uma caminhada. O artista, como se pode constatar pela sua produção recente, continua vivo e extremamente fértil.

Enrique Valero, nascido em Alcácer Quibir, Marrocos, onde viveu os primeiros anos da sua juventude, é portador, por origem, de uma cultura predominantemente espanhola. A luz do seu país de origem não deixará de o marcar em toda a sua rota artística.

Quando, no início da década de 60, com a juventude dos vinte e poucos anos, chega a Angra do Heroísmo, é de esperar o inevitável choque. A Angra chega-se de barco a vapor, é um tempo lento, de vagares, para um jovem que experimentara o bulício de Paris e de Madrid, onde já expusera e conhecera o que se estava fazendo no domínio das artes visuais.

Não obstante ter-se radicado nos Açores, na Ilha Terceira, continua a sair frequentemente, a ver mundo, não deixando, porém, de se integrar no seu novo meio. Continua a intervir como pintor e em outras funções paralelas de carácter estético. E essa intervenção artística estende-se a diversas áreas, funcionando livremente, não deixando de fazer pedagogia, de criar discípulos.

Dotado de invulgar talento, Enrique contagia muita gente, pelo lado afectuoso da sua maneira de estar. Mas é um privilégio acompanhar o trabalho das suas mãos, o acto do desenho, o acto da pintura, o momento da criação. A maestria da mão facilmente conduzida, certeira, sem hesitações, que, do ponto, do traço, conduz à forma acabada, perfeita.

Com centenas de obras no seu curriculum, sabendo bem o que quer, Enrique Valero tem, como qualquer grande artista, diversas fases no seu percurso. A obra reflecte a sua disponibilidade. E um artista também é gente que come, que paga renda, luz, impostos e agasalho. Muitas outras coisas lhe fazem falta. E quantas vezes se vê assediado por tudo isto. Mais ainda pela pressa do marchand e pela pressa do seu público.

Esta é, pois, a exposição possível. Porque Valero tem obras dispersas por vários países. Mas é uma mostra suficiente para, sem contestação, demonstrar quanto lhe é devida a atribuição de um bom lugar em qualquer grande museu do Mundo.

Para a carreira do pintor, o tempo açoriano marca definitivamente a sua obra. Os rostos dos seus frisos, dos seus retratos, das suas "famílias", são faces que encontramos, por aí, nas ruas da nossa terra.

Mesmo depois de 1989, quando passou a viver e a trabalhar em Madrid, o pintor levou consigo a cor dos olhos, do cabelo, dos laços das meninas da Terceira. Gente do povo, com trajes festivos, com o mesmo estigma. Este povo passa definitivamente a fazer parte do seu universo. Naturalmente, integração sem revolta, com gosto, com sedução. Valero não resiste à sedução das pessoas e das coisas, dos frutos e das flores, da paisagem enfim. Tudo pinta como seu, com familiaridade e volúpia.

A sua urbanidade mistura-se com o rural, sem qualquer espécie de traição. Eros, paixão, sensualidade são parte da sua escrita pictórica que não desmente a ternura por esta terra.

Em que movimento, escola, tendência se integra Valero? Não é uma questão maior. Trata-se de um homem do seu tempo, que procura acompanhar a contemporaneidade, desvendar os seus segredos e viver as suas causas. Importante, sobretudo, é que continua a trabalhar. Das sua mãos, dos seus olhos, continuam a brotar as luzes, as cores, o sonho que tornam mais humano o mundo em que vivemos.

Dimas Simas Lopes

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Última actualização em 2004-12-28