Instituto Açoriano de Cultura
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Julião Sarmento
Exposições -me e What Makes a Writer Great

 

Museu de Angra do Heroísmo
15 de Fevereiro a 15 de Março

Exposição virtual me

Exposição virtual What Makes a Writer Great

No âmbito do seu programa de exposições para o corrente ano de 2002, o Instituto Açoriano de Cultura apresentou a obra do Pintor Julião Sarmento, o que representa, por si só, um dos pontos mais altos do seu plano de actividades.

Este facto é tão mais evidente quanto mais indiscutível se torna a projecção, quer nacional quer internacional, que Julião Sarmento tem vindo a conquistar nas últimas duas décadas, colocando-se, porventura, no lugar do mais internacionalizado artista plástico português do momento.

-me e What Makes a Writer Great são dois conjuntos de trabalhos recentes que o instituto Açoriano de Cultura  apresentou no Museu de Angra do Heroísmo até ao dia 15 do Mês de Março.

A feliz ocorrência da apresentação destes trabalhos no último trimestre do ano transacto, no Museu de Arte Contemporãnea do Funchal e na Galeria Porta 33, daquela cidade, proporcionou a sua concretização, de imediato, nos Açores. Esta circunstância deu inicio a uma futura e promissora colaboração interinstitucional, que esteve já na base da cedência pela Galeria Porta 33 das obras pertencentes ao seu espólio e que integram, na totalidade, a exposição What Makes a Writer Great, motivo bastante para o Instituto Açoriano de Cultura manifestar a sua satisfação e registar o seu reconhecimento.

Aos patrocinadores desta exposição, o Instituto de Arte Contemporânea, a Direcção Regional da Cultura dos Açores, a Companhia de Seguros Fidelidade, a Fundação Calouste de Gulbenkian, a Fundação Oriente e a Quinta da Nasce Água, o Instituto Açoriano de Cultura significa também o seu reconhecimento.

Jorge Augusto Paulus Bruno
Presidente da Direcção do Instituto Açoriano de Cultura

O que fica entre duas imagens?

Julião Sarmento é um dos artistas portugueses contemporâneos de maior relevo e projecção internacional.

O seu percurso desenvolveu-se desde o final dos anos setenta, tendo vindo a utilizar a pintura, a fotografia, o filme super 8mm e o vídeo, bem como a escultura, para construir um universo de imagens que apelam à nossa imaginação e à nossa capacidade ficcional.

Quando vemos obras de Julião Sarmento – quer as mais recentes, quer as obras de início da sua carreira, facilmente verificamos que o artista utiliza um conjunto de temas que se repetem, quase como obsessões que atravessam todo o seu trabalho. Em primeiro lugar, o sexo (ou, mais explicitamente, o desejo) representado nos corpos que, umas vezes de forma explícita, outras subtilmente sugerida, se dirigem aos nossos fantasmas mais recônditos. Desta forma, a obra de Sarmento, dirigindo-se à nossa imaginação, dá um papel extremamente importante ao espectador, fazendo-nos reflectir sobre nós mesmos e os nossos processos psicológicos.

Para compreender um pouco melhor esta forma peculiar do artista se relacionar com o nosso olhar, tentemos fazer um passeio pela obra de Julião Sarmento, tentando encontrar algumas linhas de continuidade no seu trabalho.

Sarmento iniciou a sua actividade antes do 25 de Abril de 1974, numa altura em que a censura tolhia a capacidade de expressão dos artistas. Nesse período, com a guerra colonial a chamar a sua geração para o chamado Ultramar, os artistas tentavam encontrar referências num universo artístico que tinha as suas portas fechadas ao exterior.

Depois de uma geração que tinha emigrado para França, encontrando em Paris os ecos de uma vida artística activa e inspiradora, os artistas do final da década de sessenta viravam-se para o mundo anglo-saxónico e para a Pop art em busca de referências mais próximas da sua geração.

Esse é o caso de Julião Sarmento (como de Fernando Calhau) que vêm a encontrar elos e afinidades com a pintura Pop americana, ao mesmo tempo que a fotografia e a utilização do filme super 8mm vão encontrando, no seu trabalho, espaço para se afirmar como expressões legítimas artísticas. Desde muito cedo, Julião Sarmento tem uma forte influência cinematográfica e a sua pintura recolhe – mesmo nos trabalhos do início dos anos setenta – um carácter fragmentário que a aproxima da imagem cinematográfica. De facto, à semelhança do que acontece no cinema, em que o espectador nunca vê a completude de uma cena, também nas primeiras pinturas de Julião Sarmento surgem figuras (de animais) que fogem pelas margens da tela, em cores muitos intensas, como se fossem capturadas em fuga.

A partir de 1974 , no entanto, Julião Sarmento deixaria de pintar, para escolher outras formas de expressão, mais próximas do cinema, mas também mais próximas das preocupações de muitos artistas da sua geração, que deixaram de encontrar na prática da pintura a resolução para a ligação que lhes parecia que a arte devia ter com o quotidiano, para a buscarem na fotografia e na utilização do filme e do vídeo. Embora executadas com dispositivos técnicos por vezes rudimentares, as obras em filme e vídeo de Julião Sarmento desta época revelam já as tónicas mais importantes do seu trabalho posterior, começando a apresentar o corpo feminino tomado como catalisador do desejo.

Por vezes provocando algum escândalo, outras vezes centrado a sua pesquisa no seu próprio passado (e jogando com um pretenso carácter autobiográfico das imagens que apresenta), os trabalhos de Julião Sarmento introduzem um carácter narrativo, contam estórias. Estas estórias, no entanto, são fragmentárias, deixando ao espectador o espaço para, ele próprio, encontrar o seu percurso.

Acima de tudo, não fazem julgamentos morais – essa tarefa, pensa o artista, cabe a quem vê a obra, efectuando um esforço crítico e analítico. Muitas vezes, as obras incluem, para além das imagens fotográficas, textos (da autoria do artista, ou recolhidos em textos que considera referências fundamentais, como Georges Bataille, ou o Marquês de Sade). Estas obras encaminham-se para a próxima fase do seu percurso em que começa a realizar instalações, isto é, pensa os seus trabalhos em função do espaço onde irão se apresentados, não ocupando somente as paredes, mas estruturando um percurso para o espectador, por vezes apanhado numa ratoeira de indícios contraditórios.

Em 1980 efectuou, na Galeria da Cooperativa Diferença, em Lisboa, a instalação Rosebudque constitui um momento importante deste ciclo de trabalhos. Tratava-se de um conjunto de situações que utilizavam pintura, fotografia e vídeo, onde se encontrava escrita a palavra Rosebud. Esta palavra, recolhida no filme Citizen Cane, de Orson Welles, onde representa a nostalgia de felicidade do protagonista, nunca conseguia ser lida no espaço da instalação – porque se encontrava demasiado alta, ou deficientemente iluminada, ou porque sobre ela incidia uma tal quantidade de luz que o espectador não conseguia fixar nela o seu olhar. À semelhança do filme (no qual só compreendemos o significado da palavra na última cena, bem como a sua ligação à infância de Cane) também na instalação de Julião Sarmento a expectativa de encontrar a palavra-chave que dava título à exposição se gorava, fazendo com que o espectador reflectisse sobre o sentido da obra, mas também sobre o sentido do desejo – do que queremos ver e não vemos.

Ao longo deste período, é claro que o trabalho de Sarmento recorre a inúmeras referências da literaturas e do cinema para construir um universo de referências, no qual o espectador é convidado, não a entrar, mas a assistir. Será por essa razão que a figura do veyeur, do que vê sem ser visto, é tão importante no seu trabalho, transformando-nos em voyeurs, mas fazendo-nos tomar consciência do nosso voyeurismo. À semelhança do episódio que o filósofo francês Jean Paul Sartre narra num dos capítulos do livro O ser e o Nada, em que um personagem é apanhado a espreitar num buraco de fechadura, cobrindo-se de vergonha porque toma consciência de como a sua atitude é aviltante, também Julião Sarmento faz com que os espectadores das suas obras sintam um certo embaraço que decorre do facto de, quando olhamos para as suas obras, estamos a entrar numa privacidade que não é nossa.

Este tipo de dispositivo prolonga-se no seu trabalho da década seguinte, durante a qual o artista retoma a pintura, primeiro em materiais muitos pobres, depois regressando à pintura acrílica sobre tela. Algumas características do seu trabalho anterior sobrevivem a esta alteração – as referências literárias, a inscrição de palavras ou textos, a presença feminina e o carácter narrativo.

Este último é, nomeadamente, reforçado, mas de uma forma mais subtil, embora a sua pintura seja agressiva e forte, com imagens que nos ficam na memória pela sua presença intensa. Por outro lado, a pintura mistura-se com a utilização de imagens fotográficas, como com imagens de inúmeras proveniências, recolhidas em revistas ou jornais, apanhadas na rua, por vezes imagens pornográficas.

A utilização da pornografia tem, no seu trabalho, um sentido duplo. Por um lado, reforça a armadilha voyeuristica em que coloca  o espectador, jogando com ele (connosco) m jogo de gato e rato. Por outro lado a pornografia simboliza o limite da exposição do corpo, um campo onde não é possível ver mais – e onde os corpos se tornam quase abstractos, porque perdem a dimensão pessoal, para se transformarem em entidades expostas ao olhar público, um caso extremo do que acontece com as obras de arte em geral.

No final da década de 80, a pintura de Julião Sarmento encontra uma nova formulação, reduzindo de forma drástica a paleta de cores que o artista utiliza.

Com a exposição Dias de Escuro e de Luz, a pintura de Sarmento perde a cor, transformando as suas telas em campos brancos, onde se recortam desenhos de personagens. Estes personagens, normalmente mulheres (mas também fragmentos de corpos, casas, móveis ou intuições de gestos) habitam as telas numa enorme solidão, que convoca o nosso olhar, que nos faz concentrar a atenção no deambular destas figuras que, desamparadas ou perversas, nos desafiam. Por vezes, os personagens ou os gestos repetem-se, construindo um universo onde, mais uma vez, as personagens literárias desafiam a nossa capacidade especulativa. Nomes como Emma (que remete para a Madame Bovary, de Flaubert) ou Nora, a mulher de James Joyce, ou referências directas (ou mais recônditas) à literatura (Raymond Carver, por exemplo).

O outro aspecto fundamental neste novo período de Julião Sarmento, reforçado pela gradual subtileza das duas imagens, é a atenção dada ao espaço entre os corpos que habitam as suas telas. De facto, esta atenção é essencial, na medida em que se dirige ao mais íntimo da nossa relação física com os outros e com o espaço . Nós somos o espaço que guardamos entre nós e os outros e a fisicalidade das nossas relações sociais e afectivas é mensurável na distância que resguarda a nossa intimidade o que oferece o nosso corpo à intimidade com outrem. Assim, se, por um lado, o percurso de Sarmento tem levado a uma progressiva depuração , que se reflete na subtileza do desenho, no contorno das figuras femininas que fazem antever o contorno do corpo, por outro lado, cada vez de forma mais intensa, as suas imagens têm connosco uma relação mais física, agindo como catalisadores dos nossos impulsos, ou como ecrans para os nossos desejos.

Nos últimos anos, Julião Sarmento tem vindo a usar, de novo o vídeo. É o caso da obra Sem título, de 1999, que apresentamos nesta exposição, na qual uma mulher é perseguida pelo (nosso) olhar que se prende no seu caminhar pelas ruas de uma qualquer cidade, ou do trabalho Close, que apresentou na Bienal de Veneza e que resulta de uma colaboração com o cineasta canadiano Atom Egoyan. Esta última consiste numa utilização  muito peculiar do vídeo, projectado, sobre um écran de grandes dimensões, mas que mantém uma distância mínima entre o público e o ecran de projecção, obrigado a ver a peça ao longo de uma corredor que acompanha o ecran e nunca, por isso, podendo ter a distância necessária para ver toda a dimensão da imagem.

Em suma, o trabalho de Julião Sarmento representa, sempre um desafio para o espectador, instado a projectar-se no que vê, pronto a ser apanhado na armadilha do voyeurismo. Mas afinal, essa não é uma armadilha indissociável da nossa vontade de olhar o mundo e os outros?

Delfim Sardo, Lisboa, 2000

A Exposição

A exposição de Julião Sarmento que o Instituto de Arte Contemporânea dos Açores apresentou é o resultado de duas exposições que o artista realizou previamente no Museu de Arte Contemporânea do Funchal e na Galeria Porta 33, desta mesma cidade.

A esposição -me consiste num conjunto de trabalhos seleccionados pelo comissário, Delfim Sardo, que pretendem dar conta do trabalho recente de Julião Sarmento e partir de uma tónica no olhar sobre o espaço entre os corpos, sobre a tensão que Sarmento provoca na relação entre as suas imagens e no seu interior. A exposição inclui uma obra em vídeo, de 1999, bem como uma escultura e um conjunto de pinturas. Se, num primeiro conjunto se encontra a constante da presença da mulher, nas obras Plateau e The House with the Upstairs in it o espectador é confrontado com trabalhos que nos parecem abstractos. De facto, não o são, porque reproduzem fielmente desenhos de crianças (dos filhos do artista). Em suma, lançam-nos uma interrogação sobre aquilo que conseguimos reconhecer – se reconhecemos figuras femininas, não encontramos nelas mais nada senão a abstracção do nosso desejo, embora, não reconheçamos aquilo que é absolutamente figurativo, o fac-símile do desenho infantil.

A série What Makes a Writer Great é um conjunto de desenhos que incluem colagens de imagens fotográficas retiradas de jornais, a que se junta uma frase, ou uma expressão, em inglês ou em francês. Estas frases não têm relação aparente com as imagens, enraizando-se no interior do pensamento do artista que não partilha connsco o segredo da sua razão. É, então, necessário realizar um jogo de reconhecimento, ou tentar produzir sentido a partir das várias frases, que têm a particularidade de ter sido escritas a lápis, à mão sobre o fundo da imagem, mas como um rigorque as simula como serigrafias.

No conjunto deste dois grupos de trabalhos encontramos um panorama do trabalho mais recente de Julião Sarmento, que utiliza a pintura, a escultura, o vídeo e o desenho, recorrendo a estas formas expressivas mantendo uma fortíssima continuidade temática e de referências.

Nota biográfica

Julião Sarmento nasceu em 1948. Vive e trabalha no Estoril.

O seu percurso iniciou-se pela pintura, tendo vindo a utilizar o vídeo, o filme, a fotografia e a escultura, bem como o desenho.

Tem vindo a apresentar o seu trabalho nos mais importantes museus portugueses, bem como em instituições internacionais de grande prestígio, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. As suas obras encontram-se em inúmeras colecções portuguesas e internacionais, das quais se estacam a Fundação Calouste Gaulbenkian, Caixa Geral de Depósitos (Lisboa), Fundação de Serralves (Porto), Fundació La Caixa (Barcelona), Hirshorn Museum and Sculture Garden (Washington), Moderna Meseet (Estocolmo), MoMA (Nova Iorque), Centre Georges Ponpidou (Paris), Salomon Gugenheim Museum (Nova Iorque), Staatlische Galerie am Lembachaus (Munique), Stedelik Van Abbemuseum (Eindhoven), entre outros.

Patrocínios

Instituto de Arte Contemporânea
Direcção Regional da Cultura dos Açores
Companhia de Seguros Fidelidade
Fundação Calouste Gulbenkian
Fundação Oriente
Quinta da Nasce Água

Colaboração

Museu de Arte Contemporânea, Funchal
Galeria Porta 33, Funchal
Museu de Angra do Heroísmo

O Instituto Açoriano de Cultura agradece a todos os coleccionadores que cederam peças para esta exposição e em especial ao Pintor Julião Sarmento.

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Última actualização em 2004-12-28