Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo
1 de Janeiro de 2005, pelas 15:30 horas |
O OVGA-Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e o IAC-Instituto Açoriano de Cultura vão assinalar a passagem dos 25 anos do Terramoto de 1 de Janeiro de 1980 com uma sessão solene que terá lugar no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, no próximo dia 1 de Janeiro de 2005, pelas 15:30 horas.
Desta sessão solene fará parte uma conferência a proferir pelo Prof. Doutor António Manuel Bettencourt Machado Pires e o visionamento de um filme de cerca de 20 minutos, realizado pelo Centro de Áudio-Visuais da Força Aérea Portuguesa intitulado “Catástrofe dos Açores – Janeiro de 1980” que documenta as acções de socorro e salvamento desenvolvidas por estas forças, nomeadamente a evacuação de moradores da Fajã do Santo Cristo da Ilha de S. Jorge.
Inicialmente esteve prevista para esta ocasião o lançamento de um álbum de fotografias e a inauguração de uma exposição sobre esta temática, mas razões que se prendem com um atraso na recolha e tratamento do material levou a adiar esta sessão para o próximo mês de Março.
Ainda no quadro destas comemorações, o OVGA-Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e o IAC-Instituto Açoriano de Cultura programam a realização de um seminário que pretende fazer o balanço – à distância de 25 anos – dedos efeitos do terramoto em diversas áreas (economia, sociedade, conhecimento científico, técnicas de construção e restauro sismo resistente e património cultural), a ter lugar no mês de Maio de 2005.
SESSÃO COMEMORATIVA DOS 25 ANOS APÓS O TERRAMOTO DE 1 DE JANEIRO DE 1980
Discurso proferido pelo Presidente da Direcção do IAC, Dr. Jorge Bruno
Hoje, o dia 1 de Janeiro do ano de 2005 separa-nos – numa dimensão de tempo cronológico – um quarto de século do fatídico dia 1 de Janeiro do ano de 1980, quando a natureza exibiu, uma vez mais, um dos seus mais devastadores caprichos. Neste caso, através de um fenómeno sísmico inadvertido e de substancial intensidade que, atingindo três ilhas deste arquipélago, mas especialmente esta Ilha Terceira, no imediato, em breves – mas longos – segundos, espalhou a morte, o pânico, a destruição, a dor e o sofrimento e lançou a semente de uma onda de transformação, notória e irreversível, na sociedade que atingiu.
Tem sido assim uma dominante ao longo de toda a nossa história de quase já seis séculos, e de modo tão marcante que a nossa própria cultura é, ela própria, moldada por esta predisposição da natureza.
Mas não é uma dominante exclusiva da nossa história, pois também é de muitos outros povos, em muitos outros locais deste planeta. Bastará, apenas, para tanto, recordarmos as trágicas imagens que desde há uma semana atrás invadiram os nossos lares e nos deram conta do terrível terramoto de Sumatra, no outro lado do planeta, que ceifou milhares de vidas humanas.
Porém, o acontecimento cuja memória hoje evocamos diz-nos directamente respeito, porque atingiu o nosso território e a nossa sociedade. Por isso aqui estamos, mas não apenas para recordarmos um triste e sinistro momento da nossa história recente, antes para tentarmos perceber – a partir da distância temporal que já nos separa desse momento – os seus efeitos a médio e longo prazo.
Foi com esta intenção que prontamente o Instituto Açoriano de Cultura acedeu ao honroso convite que lhe foi formulado pelo Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores – prestigiada instituição açoriana, de natureza científica, dirigida pelo Prof. Victor Hugo Forjaz – para constituir com ela uma parceria com vista à dinamização da celebração desta significativa data.
Não podia, pois, o Instituto Açoriano de Cultura deixar de se associar à evocação deste acontecimento. Já o fizera três anos logo após a sua ocorrência, em Janeiro de 1983, quando realizou a sua VI Semana de Estudos sob o tema «Problemática da Reconstrução», cujas actas – publicadas em dois volumes – dão ainda hoje testemunho da notável dimensão deste importante fórum de discussão e reflexão, que contou com cerca de cem comunicações.
Por conseguinte, para assinalar a passagem destes vinte e cinco anos, o Observatório Vulganológico e Geotérmico dos Açores e o Instituto Açoriano de Cultura planearam três momentos distintos que decorrerão ao longo do primeiro trimestre deste novo ano de 2005.
O primeiro, esta sessão solene, comemorativa, com o objectivo de assinalar o ocorrido, precisamente há vinte e cinco anos por esta hora.
Para evocar a memória desse dia, foi convidado o Prof. Doutor António Manuel Bettencourt Machado Pires, eminente professor universitário, filho desta terra, que experimentou – como muitos de nós – pessoalmente, e com a sua família, o drama que é ser atingido por um terramoto. A ele, antes de mais, cumpre-nos uma palavra de reconhecimento pela sua disponibilidade para emprestar a esta sessão – com a sua evocação – a dignidade que o momento reclama.
Depois, será visionado um impressionante filme, intitulado «Catástrofe dos Açores – Janeiro de 1980», realizado pelo Centro de Audiovisuais da Força Aérea Portuguesa com o objectivo de documentar as acções de socorro e resgate levadas a efeito pelas Forças Armadas Portuguesas junto de populações sinistradas.
Graças a uma oportuna indicação, foi possível localizar o paradeiro deste filme, que constitui, de resto, um documento muito pouco conhecido e, por si só, de inegável interesse.
Importa, portanto, deixar aqui também registada uma palavra de agradecimento ao Centro de Audiovisuais da Força Aérea Portuguesa, que possibilitou a projecção do filme que iremos visionar e uma outra de homenagem a todas as forças militares e paramilitares, nacionais e estrangeiras, e ainda a todos quantos participaram nas acções de socorro e resgate então empreendidas.
O segundo momento terá lugar durante o próximo mês de Março, com o lançamento de um álbum de fotografias, que pretende, no essencial, oferecer uma nova leitura desta catástrofe com base em imagens praticamente inéditas, obtidas na sequência do lançamento de um apelo público junto da população para o efeito.
A acompanhar este lançamento, será realizada uma exposição com a selecção das imagens mais significativas.
Finalmente, um terceiro momento, no mês de Maio, com a realização de um seminário cujo objectivo será o de proporcionar um balanço das alterações provocadas a médio e a longo prazo em áreas como na económica, na sociedade, no âmbito do conhecimento científico no domínio da sismologia, no âmbito das técnicas de construção sismo-resistente e no domínio do património cultural, entre outras.
Bem sabemos que cerca de 10% da população terceirense de hoje não era nascida há vinte e cinco anos atrás, em 1980. Mas este facto, longe de representar um motivo dissuasor para evocarmos hoje o trágico dia 1 de Janeiro de 1980, é, antes pelo contrário, motivo mais do que determinante para o fazermos, porque é por de mais evidente que a sociedade terceirense, onde hoje vivem esses jovens, foi substancialmente condicionada por esse fenómeno da natureza.
Duas palavras finais: uma, para agradecer à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo a sua inteira disponibilidade para que esta sessão ocorresse neste novo Centro Cultural e de Congressos, outrora a Praça de Toiros de São João, ele próprio uma consequência deste sismo ocorrido há vinte e cinco anos, e a outra a todos quantos aceitaram o nosso apelo público e partilharam a informação que dispõem, permitindo um maior enriquecimento destas comemorações.
Importa, assim, que tenhamos a capacidade, saudável, de olhar para trás, mas com os olhos postos no futuro, porque é para este que qualquer lição que daqui possamos tirar nos poderá servir.
Por último, agradecendo ainda a vossa participação nesta sessão, peço-vos que me acompanhem num minuto de silêncio, em memória daqueles que faleceram na sequência do Terramoto de 1 de Janeiro de 1980.
[…]
Obrigado.
Jorge Augusto Paulus Bruno
Presidente da Direcção do IAC
SESSÃO SOLENE COMEMORATIVA DOS 25 ANOS
APÓS O TERRAMOTO DE 1 DE JANEIRO DE 1980
Conferência do Professor Doutor António Manuel Bettencourt Machado Pires
Faz hoje vinte e cinco anos que ocorreu o sismo de 1 de Janeiro de 1980. Vinte e cinco anos é o intervalo de uma geração. Uma geração é um conceito inventado a partir da Biologia e da experiência humana de afirmação social. É uma medida «sui generis» que se usa em Cultura para estudar a evolução das sociedades. A Natureza, porém, não se regula por esses conceitos, nem por unidades de calendário ou de relógio, mas por intervalos que são os ritmos da própria vida. E a vida geológica é ritmada por um tempo difuso sem tempo cronologicamente preciso que se saiba! De resto, a Natureza, na sua frontal existência perante a Humanidade, não é «precisa», é «caprichosa», impositiva, brutal, «vitalista», reduzindo a escala humana a essa medida bem frágil.
O tempo tema de todos os tempos! não é só matemático, nem só histórico-cultural, nem só biológico, nem só psicológico: é um todo, e uma totalidade, como totalidade que é, não é abarcável pela mente humana. A ciência é a tentativa de aproximação dessa realidade total não abarcável; é um esforço sublime de aproximação, feito de tentativas e de erros, de vitórias inesperadas, de sublimes arrancadas do conhecimento, procurando melhorar as condições de vida da Humanidade, crescendo nos limites dessas arrancadas das análises e das sínteses, das teses e das antíteses, do fascínio das teorias.
O acontecimento de um de Janeiro de 1980 teve importantes repercussões, quer imediatas, de sinistralidade e prejuízo, quer mediatas, de natureza económica e sociológica. Traumas, reconstrução, crise, também o doloroso e benéfico emergir de uma verdadeira consciência patrimonial.
Se a experiência tem de ser evocada e comemorada, não pode ser inteiramente compreendida senão por aqueles que passaram por ela. Vai a tempo o intervalo geracional. É uma homenagem aos vivos e aos mortos. Ainda cá estamos, alguns dos que ficaram sem parentes, sem casa, sem horizontes, sem compreender bem o que se passara em cerca de 20 ou 25 segundos, contados ao fim de uma grande tensão preceptiva, paralela a uma grande crispação geológica.
Talvez o geólogo tenha alguma coisa em comum com os poetas e com os médicos, pois cada um admite, à sua maneira, a imprevisibilidade da Natureza.
Um abalo telúrico é uma intromissão sem hora nem aviso, nem respeito pela vida privada. É a Natureza e o Tempo que batem à porta.
Seja-me permitido que refira sem pudor familiar a minha própria experiência para se poder intuir o aleatório e o arbitrário do Destino. Cada caso é um caso, cada nuance faz, ou pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
Às vinte para as quatro da tarde do dia 1 de Janeiro eu estava em férias de Natal em casa de meus pais, com mulher e duas filhas, respectivamente com treze anos e nove anos. Encontrava-se em casa, também, a minha avó, com 93 anos. Pois cada um de nós tem a sua história, o seu percurso, a sua reflexão própria. Meu pai teve de sair do lugar mais afastado do seu escritório numa torre da casa, desceu muito rapidamente uma escada, escapando por segundos ao desabar das paredes para o quintal e ao tombar de estantes com quarenta anos de livros. Eu e a minha filha mais velha fugimos de uma sala onde tememos o desabamento de um pesado lustro pendente de um tecto trabalhado e onde um pesado contador caiu. Fui acabar o meu percurso num corredor-marquise, já meio desabado e arrancada da parede central, onde se vertiam sobre mim pedaços de telha, caliça, pó; deparei com um montão de pedras entre as quais estava a minha filha mais nova, apanhada de surpresa, enquanto lia banda desenhada. Convenci-me que poderia estar morta; não fui capaz de a puxar. Só recobrou a fala momentos depois, foi preciso chamar gente à rua para a retirar. Transportada ao Hospital, no meio da imagem de uma cidade cinzenta, bombardeada, cheia de fios e telhas, só às onze da noite se pode saber que tinha uma fractura na bacia e um músculo do braço um tanto esmagado.
Tanta radiografia se havia tirado naquela tarde que as radiografias tinham muito menos precisão. Haviam mesmo crianças feridas ou amputadas a acordar de anestesias. Havia uma grande confusão. Entretanto, em casa, um cheiro a terra húmida e a pó envolvia tudo. Buracos escancarados em tectos, provocados pela queda de pedra de tamanho considerável. Mas o estranho, o caprichoso, o aleatório permaneciam. A minha filha mais velha, ao passar junto a uma louceira, viu as portadas abrirem-se, cair um copo que lhe fez um ligeiro ferimento, fechando-se de novo, e de tal forma que não foi possível abri-las normalmente com a chave. À minha mãe nada aconteceu de estranho, e a minha avó, muito lúcida e com os seus 93 anos, também nada sucedeu. Limitava-se a ver extinguir-se a transmissão da missa da RTP-A no televisor a preto e branco e da janela do quarto pode ver a espantosa particularidade de ruir totalmente uma cozinha velha da casa. Descreveu essa cena, aliás, com espanto mas serenidade.
Cada um com a sua história. Mais meio metro e salva-se; menos uns segundos e é-se apanhado. Um passo, uns centímetros, eis a diferença entre a vida e a morte.
A minha filha mais nova é hoje engenheira-física, já tem um filho e não guarda memória traumática do acontecimento. Os tais segundos ou centímetros fizeram a diferença entre a vida e a morte, entre o passado, o presente e o futuro que lhe foi possível realizar. Pedras de mais de 70 quilos de cantaria aparelhada rondaram vários seres humanos numa casa sem os esmagar ou mutilar.
Infelizmente, não foi assim com todos. Mesmo sendo de dia, houve mortes a lamentar. Houve enormes danos patrimoniais, economias familiares comprometidas, futuros de luta inesperada ou incerta. Gente que viera das colónias sem nada há poucos anos e sem nada se via outra vez! Gente que ficou presa em carros, cuja outra parte estava esmagada por pedras. E gente que levou tempo a saber dos seus familiares em outro ponto distante da ilha. A dura experiência de 1 de Janeiro ensinou a ter em conta algumas cautelas liminares; chamou a atenção para a precariedade de muitas habitações; levou a uma autêntica renovação do parque habitacional da Terceira; fez despertar uma fecunda consciência patrimonial e mobilizou forças de trabalho e solidariedade que eram quase insuspeitadas.
Auto-construção (G.A.R.), solidariedade, património, regras para a reconstrução. Um esforço enorme, vivido pelos sinistrados e pelo Governo Regional nomeadamente a Secretaria da Educação e Cultura (da responsabilidade do Dr. José Guilherme Reis Leite) e a Direcção Regional da Cultura (da responsabilidade do Dr. Jorge Forjaz). Intervenientes e participantes da angústia pessoal e colectiva.
O Sismo de 1 de Janeiro de 1980 foi uma experiência envolvente que os vivos não vão esquecer. Perante a natureza geológica deverá ficar para todos a noção de que tão falada consciência da Açorianidade começa ali mesmo nas pedras nas quais se prendem as nossas raízes telúricas e as nossas raízes históricas.
Essa é a voz do primum vivere brutal que a Natureza dita ao Açoriano: viver com as suas pedras, dar-lhes uma científica privacidade, esperar delas a imprevisibilidade das coisas naturais que nos concedem tanta beleza nos longos intervalos das suas fúrias cósmicas. Em suma, enfrentar com serenidade a terra volúvel e imprevisível. Aconselhar a prevenção que é construir bem, educar melhor, estudar o possível para a previsão possível, conjugando assim prevenção e previsão. Sem dramatismos nem utopias, aprender a viver com realidades condicionadas e condicionantes. Tirar da cientificidade o enriquecimento da experiência preventiva.
Garantidos estes pressupostos de racionalidade, talvez então seja possível saltar para outras considerações de natureza mais literária que sintetizam poeticamente a nossa existência entre a História e a Natureza, numa persistência multissecular de cerca de meio-milénio, entre a história dos navegadores e povoadores portugueses do século XV e os ilhéus persistentes que se mantiveram nestas mesmas ilhas, criando estas cidades «pétreas e salinas» de que fala Nemésio em Corsário das Ilhas (1956) e que, já em 1932, ao inventar a «Açorianidade», disse justamente: [...] «somos de carne e de pedra [...] os nossos ossos mergulham no mar».
Mergulhamos todos na experiência telúrica de um tempo histórico de mais de meio milénio, que nos condiciona, por vezes nos amarga, mas também nos enriquece para os desafios do futuro.
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