Assim como a aparência de um espectro não pode ser captada por uma fotografia e foge de ser um feito palpável, é indefinida, muda e ninguém conhece a sua forma; tudo o que respeita à sua descrição são especulações, desvios ou exageros; isso é tudo o que sabemos da verdade.
O imaginário, localizado nos confins mais estreitos das sociedades, isto é, o estético, o ideológico ou o psico-analítico tem de ser visto como exemplo para a compreensão dos estratos humanos do real. Assim, tudo o que está presente no mundo histórico e social e que constitui a realidade dos seres humanos, incluída a tecnologia, resulta do inconcebível sem recorrer à imaginação. A construção do imaginário podia ser entendida como uma questão de “imaginação”, “criação” ou “invenção”, como algo que destaca em todos os campos da actividade humana para nos apresentar um mundo ou fragmentos de um mundo, pois nenhuma imaginação pode se completa.
O ser humano, através da arte, alude e representa o mesmo de formas diferentes.
A arte hoje sugere a colaboração estreita entre matemáticos, físicos, programadores e criadores. Encontramo-nos perante um novo Renascimento, uma nova aliança entre cientistas e artistas à qual tem ajudado a expansão do computador como ferramenta de trabalho. Enquanto, outros trabalhos analisam e se posicionam relativamente à necessidade de construção de diferentes formas de narração no território da imagem ou na construção de novos imaginários que nutram a nossa experiência. Num tempo ambíguo marcado pela dispersão e desconcerto, talvez o grande desafio consista em reformular o sentido de uma produção que se encontra extraviada. Impõe-se então, como mobilizar os significados colectivos num tempo desencantado e como ensaiar novas formas de questionamento social como novas chaves para re-interpretar o presente confuso que nos condiciona.
A fotografia conceptual evoluiu desde a contundente ideia originária de ser um reflexo do real, da aparência, até se converter numa ferramenta conceptual, mostrando que com ela simplesmente, e magicamente, se recriam e voltam a construir-se novas formas de representações. Convertendo-se desde uma simples técnica mecânica de reproduzir o real, até ao estado actual como um dos suportes essenciais para os artistas.
A diluição das disciplinas artísticas surgida com a pós-modernidade está a permitir aos criadores actuais realizarem diferentes utilizações que abrem possibilidades à reflexão estética. Cada época constrói as suas próprias metáforas do bem-estar, e com a proliferação da tecnologia de informação, da identidade unitária, a subjectividade moderna é objecto de um profundo desafio. Os estados virtuais dentro dos meios informáticos apontam a um espaço “transicional”, no qual o indivíduo moderno é deslocado” no espaço inter-relacionado.
A identidade construída, uma imaginação que não respeita os limites das distinções metodológicas ou disciplinares. A identidade na era da Internet está a deslocar a questão da imaginação para o lado do observador. Não oculta o real, mas emprega este argumento para oferecer uma visão modificada da identidade que oculta a imaginação em funcionamento. Como se o artificial se alinhasse com a imaginação.
A fotografia, certamente, não é um novo meio, ainda que massivamente se estejam a introduzir meios digitais com a sua amplitude de possibilidades construtivas, no entanto demoraram em conseguir reconhecimento artístico e nos últimos tempos estão-se a explorar com intensidade. Mesmo estando ligada à tradição figurativa ocidental, a sua vertente imediata e versatilidade são factores que contribuem para a sua utilização constante por parte dos artistas. Foi debilitando as formalidades e conteúdos clássicos assim como o seu uso por parte de fotógrafos e artistas em geral contribuindo a uma resignificação das ideias em torno da crise da representação. Criando ficções que se misturam de forma activa com o real e com elementos referentes aos próprios posicionamentos dos artistas, no que toca a como despregar os seus próprios discursos; uma forma de fazer que exclui a linearidade para incidir numa mistura de ficção e documentação, mistura de movimentos descontínuos onde as personagens podem saltar as leis lógicas, onde se traçam inter-relatos dentro de outros relatos. Relatos e encenações ligadas à base de estratificações de sentido.
Discursos que, ás vezes, se decantam no terreno do documento, fragmentos da realidade que reivindicam memória e história como lugares de construção do presente. Vinculados a uma reflexão em torno da nossa história recente, fracturas históricas e sociais vividas na nossa terra extrapoláveis a outras geografias. Esse lugar onde a vida quotidiana convive com a natureza ameaçada, a sociedade de consumo, o passo do tempo. São territórios calculados para aproximar-nos a uma meditação existencial que conduz ao cepticismo. O resultado é um relato inesperado com carácter narrativo dos relatos que se cruzam.
A imagem como linguagem que te permite interpretar a realidade e vincular-te com ela de uma maneira específica, então a foto (imagem) vai para além da técnica. Não se imagina em função da veracidade, ou se foi concebida, ou construída, apenas que para que uma imagem exista, algo teve que existir na realidade que modificas ou interpretas. Ficção e realidade unidos, sobre as obsessões do ser humano de todo o tempo e lugar; o medo, a arte, os sonhos, as paisagens.
Neste espaço também está a utopia, o desejo. Um caminho que nos conduz ao escuro. A cegueira do mundo que se traz ao mundo. Um acerta necessidade de estabelecer um vínculo com o estranho através do nosso outro; isto é, através de nós mesmos. Um sinal de incerteza, uma travessia sem trajecto, uma deriva de e para o incerto. Um olhar cujo sinal é a melancolia. Uma persistência que se fica nas imagens como um absurdo. Arvorado como uma condição do nosso tempo e como alternativa à ordem das certezas que é a pauta dominante no saber ocidental. A incerteza será o outro, tão ilusório como uma ilusão.
Também a soberba do capital tem servido de molde e a mecânica de matar sonha umas trincheiras apocalípticas. Propostas estéticas construídas com sinais que provêm da realidade, para gerar outra não visível, apontada. Passando por um exercício de indignação moral, mordacidade e compromisso, tentado que a atenção seja dirigida a outros níveas da sociedade, entre eles os media. Como veículos às vezes da espectacularização da tragédia humana.
Assim como as “pinceladas” que se repetem mecanicamente gerando contundentes cortinas de cor para destilar uma linguagem de traços que expressam a meta-linguagem do captado pelos sentidos, o que afasta estas obras do meramente perceptivo param introduzi-las num discurso mais amplo sobre a cultura plástica.
Impressionando rostos, corpos, paisagens, momentos, emoções em todas as técnicas imagináveis, em todos os suportes possíveis, sem saber ainda distinguir a verdade da aparência, sem saber o que é truque ou invento, aceitando que a fotografia é simplesmente uma forma mais de procura. Re-compõe um tempo mutante do processo. A imagem como uma fracção do tempo captado, enquanto congelado, dissolve-se como acrescento de outras dimensões temporais. Não há “momento decisivo”. Dissipa-se uma sincronização, na qual a fotografia é uma imagem melancólica e nostálgica do tempo inexorável. O percorrido pelos espaços fictícios não é afrontado com a distância da contemplação, ma sim na sua imbricação com a vida quotidiana, com os estados de ânimo, com as lembranças. A metáfora, a adjectivação imprevista e o gosto pelo risco linguístico, nos recorda no Gómez de la Serna das algazarras:
“Situo, redescubro geografias num mapa de outrora (que importa): a redondeza do orbe, desconcerta como um grande berlinde semovente.”
Gopi Sadarangani