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N.º 43 14/12/2006 CINEMA ALTERNATIVO | IAC-Instituto Açoriano de Cultura O grandiloquente e poético marginal João de Deus, sentado num banco de jardim, recebe um enviado do seu omnipotente homónimo que lhe entrega uma mala cheia de dinheiro. João salva das águas do lago a bela Joana de Deus que deixa ao cuidado de umas carmelitas que apreciam os prazeres da vida. O dinheiro permite-lhe entrar na alta sociedade, ganha ao jogo a fortuna do príncipe Omar e a sua princesa. Quando se acaba o dinheiro termina a paródia e também a liberdade, já que João é preso por ter na sua posse material de guerra. As Bodas de Deus de João César Monteiro encerra a trilogia dedicada a essa truculenta e irresistível personagem de iluminado marginal lusitano que é João de Deus, figura central de As Recordações da Casa Amarela e A Comédia de Deus. O irreverente, provocatório e iconoclasta humor de João César Monteiro, particularmente mordaz e contundente em relação à Igreja, acompanha a trajectória do marginal João de Deus que encontra agora a fortuna, graças a um sortilégio divino, mas não o caminho da respeitabilidade, acabando por tudo consumir numa orgia. Na beleza dinâmica dos seus planos fixos, César Monteiro continua a filmar com fascinante sentido estético e a povoar os seus filmes com belas e sedutoras mulheres, nomeadamente Rita Durão e Joana Azevedo, enquanto vai reflectindo sobre a vida, o Mundo e o cinema através desse seu peculiar "alter ego" de ficção, João de Deus, que é por mérito próprio uma das personagens mais singulares e notáveis do cinema português.
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