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N.º 32 25/09/2007 Cinema Alternativo
Belarmino aborda o declínio da existência, entre memórias e nostalgia, de um antigo campeão de boxe, Belarmino Fragoso, um homem de origem humilde surpreendido pelo sucesso até ao resvalar da sua vida marginal e popular, pela cidade em que viveu: Lisboa. Belarmino, nome real de um boxeur em decadência que interpreta o seu próprio papel, é sobretudo um belo filme confessional, com a perseguição de uma voz sempre off (voz do entrevistador) ao rosto quase sempre presente do protagonista. Implacável campo-sem-contra-campo, o filme é uma habilíssima articulação entre o flash-back e o frente-a-frente. Se Belarmino tivesse vivido noutro país, talvez fosse um grande campeão. Esta afirmação, feita no filme, faz passar Belarmino do fait-divers para a tragédia. É um filme construído sobre o combate de um personagem com um décor, essa portentosa Lisboa do filme que só pode levá-lo ao K.O. em qualquer round. Traçando (via entrevista conduzida pelo jornalista Baptista-Bastos) o perfil do pugilista Belarmino Fragoso, é de Lisboa-cidade e da respiração acossada do país que este filme fala. Imagens secas, palavras rudes, ao diabo a verdade-mentira desse homem sozinho. A ambiência empapada e cinzenta dos lisboetas dos anos 60 está lá, engravatada e dispersa, anónima num destino emigrante para ser massacrada. Grades e música de jazz, em estilhaços gritantes. Nem sonhos, nem ilusões, cansaço. E uma montagem que quer levantar voo e a realidade não deixa. Nem condoído nem exaltante: Belarmino é apenas um murro no estômago. Festival de Pesaro, Itália, 1964 Realização: Fernando Lopes |